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A bolsa na crista da onda

Por Daniele Camba, da Praia do Embaré, em Santos

Em 1997, alguns meses antes de estourar a crise da Ásia, o comerciante português
aposentado Luiz de Jesus Fernandes começou totalmente por acaso a investir em ações. Ele
havia vendido um apartamento em Santos (litoral de São Paulo), onde morava, para
comprar um maior, mas o vendedor do imóvel morreu. Sem saber o que fazer com o
dinheiro e ouvindo falar que a bolsa subia de vento em popa, Seu Luiz, como é conhecido,
resolveu aplicar os R$ 290 mil que tinha em ações do Banespa. “Na época, eu li que o
Banespa seria privatizado e que era um diamante a ser lapidado, me entusiasmei e resolvi
apostar na história”, lembra Fernandes.
Cinco meses depois, o valor das ações saltou para R$ 950 mil e Seu Luiz tirou parte dos
ganhos para comprar um apartamento de 360 metros quadrados, muito maior do que o
anterior.
O restante dos recursos ficou na bolsa e, sempre que podia, aplicava outras economias nas
ações. Hoje, aos 76 anos, o alegre português, ex-dono de uma padaria, orgulha-se em dizer
que ficou milionário com a bolsa. O termo não é exagerado, já que Seu Luiz tem R$ 5,2
milhões aplicados em ações. Só em papéis do Banco do Brasil e da Petrobras, ele tem nada
menos que R$ 4,6 milhões. O restante está em ações da Vale e da Telemar.
“Se não fosse a bolsa, eu não teria o apartamento e tudo que eu tenho hoje”, diz o
aposentado, que conversou com o Valor diante do furgão da Bovespa, batizado de
Bovmóvel, na Praia do Embaré, em Santos.
O caso de sucesso de Seu Luiz, que não é raro, mas também não pode ser generalizado, se
mistura com a história de popularização do mercado de capitais, que vem ganhando força
nos últimos anos. Exatamente cinco anos depois, a reportagem do Valor voltou a Santos
para ver o que mudou na reação dos banhistas ao furgão da bolsa, no projeto “Bovespa vai
à praia”, uma das várias iniciativas para atrair as pessoas físicas.
Apesar de ainda haver um certo desconhecimento, os progressos são nítidos. Em 2003, a
reportagem do Valor ouviu uma pessoa perguntando aos consultores da Bovespa se a bolsa
que estavam vendendo era de couro e qual o tipo fecho. Outras perguntavam se a Bovespa
era uma empresa do Banespa, se era preciso ter muito dinheiro para aplicar em bolsa ou
quanto teriam de retorno.
Dessa vez, a grande maioria que parava no Bovmóvel para conversar com os profissionais
já tinha alguma noção do assunto ou até investia em ações. É o caso da auxiliar
administrativa Elizangela Vidal Valverde. Ela é uma dessas pessoas que estrearam
recentemente no pregão, mas admite que ainda tem muito o que aprender. Em setembro do
ano passado, Elizangela aplicou num fundo de ações juntamente com amigos do trabalho.
Tomou gosto e, em novembro, entrou no IPO (oferta pública inicial na sigla em inglês) da
BM&F. Só que a jovem, de 29 anos, está preocupada com a turbulência dos mercados e ainda tem dúvidas se o melhor não seria sair da bolsa antes que não tenha mais ganho
algum para tirar da aplicação. “Todo mundo diz que bolsa é longo prazo, mas quem vendeu
as ações da BM&F no dia da estréia ganhou 22%, enquanto eu amargo uma perda de
13,19%”, lamenta.
Ao contrário de Elizangela, Seu Luiz não está muito preocupado com os mercados. “Vim
aqui para conversar um pouquinho com eles (os consultores) e saber o que estão achando
dessa crise dos Estados Unidos” diz. E se engana quem pensa que ele pensa em tirar o
dinheiro da bolsa. “Quero saber se as ações vão continuar caindo porque quanto mais cair,
melhor, assim compro a preços menores e maiores são minhas chances de retorno, quando
o mercado se recuperar.”
Ele não fala da boca para fora. Em todas as últimas grandes crises (da Ásia, Rússia, da
desvalorização do real, da bolha do Nasdaq, da Argentina e do atentado às torres gêmeas
nos EUA), Seu Luiz aproveitou para aumentar a carteira. “Antes, acessava todos os dias o
computador para ver se tinha ganhado ou perdido em relação ao dia anterior; hoje eu aplico
e só olho no fim do mês, quando chega o extrato do banco”, afirma o aposentado.
O movimento de popularização da bolsa encontrou terreno fértil com a retomada das
ofertas públicas de ações , a partir de 2004, e com a extensa fase de valorização dos papéis,
com Índice Bovespa subindo durante cinco anos consecutivos. Entre 2003 e 2007, o
indicador se valorizou 466,97%, de longe a melhor aplicação entre as principais opções de
investimento. “É inegável que tem gente que parou aqui entusiasmada pelas altas, mas que
não tem realmente perfil para um mercado de risco como a bolsa é, e que, portanto, irá sair
no primeiro susto”, diz Antonio Carlos Nogueira de Sá, da Planner, uma das corretoras que
acompanham os consultores da bolsa nas visitas em outras cidades.
Mas Sá lembra que as perguntas já são bem mais complexas do que há alguns anos. “Hoje
as pessoas já perguntam sobre opções (direito de comprar ou vender uma ação a um
determinado preço), sobre a diferença de tributação entre comprar ações diretamente ou via
fundos e qual é o código do Darf (Documento de Arrecadação de Receitas Federais) para
recolher o imposto de renda em ações”, exemplifica Sá.
O período de bonança do mercado nos últimos anos faz brilhar os olhos até de quem se
traumatizou com perdas passadas. Aos 18 anos, o empresário Mário Rodrigues Pinto,
vendeu um apartamento que ganhara do avô para investir no antigo mercado de
“overnight”. No entanto, caiu no conto de uma falsa corretora de valores e perdeu tudo.
Hoje, aos 46 anos, Pinto começa a se interessar por bolsa e pensa em aplicar em ações parte
dos recursos que ganhou na venda de sua empresa. “O mercado é mais sério, controlado,
por isso, só preciso estar preparado para perder dinheiro com as oscilações dos papéis”, diz
o ex-empresário, que buscava informações sobre home broker (negociação via internet)
com os consultores do Bovmóvel.
O amplo programa de popularização da Bovespa foi responsável pelo ingresso de muitos
investidores no mercado de ações. O ex-operador e hoje promotor de negócios do
Bovmóvel Ricardo Siqueira lembra que, em 2003, em uma visita do furgão à cidade de Jaú,
no interior de São Paulo, um pequeno agricultor que tinha R$ 862 mil numa caderneta de poupança, resolveu diversificar, colocando parte do dinheiro em bolsa. Já na última vez que
a equipe da Bovespa visitou a cidade do Guarujá, no litoral de São Paulo, um ambulante
passou a aplicar R$ 200 por mês em duas ou três ações. “Algumas pessoas ainda ficam
surpresas de saber que podem aplicar o quanto quiserem em bolsa, muitos ainda têm a visão
de que ações é apenas para ricos, mas, aos poucos, esse engano vai se corrigindo”, acredita
Siqueira.
Segundo o diretor de marketing da bolsa, Luís Abdal, dentro do projeto “Bovespa vai até
você”, que engloba a ida ao litoral, às universidades, aos municípios, às fábricas, o
“Bovespa vai à praia” é um dos que mais têm retorno. Entre os 460 mil cadastros, cerca de
120 mil foram feitos nesses cinco anos de visitas ao litoral. Numa pesquisa feita no fim de
2006 com 20 mil dessas pessoas cadastradas, 32% delas já aplicavam em bolsa, um
percentual considerável, lembra Abdal. “Não sabemos quantas dessas pessoas começaram a
aplicar depois de terem contato com um dos programas do ‘Bovespa vai até você’, mas, sem
dúvida, uma parte foi”, acredita. Para obter exatamente essa resposta, este ano a bolsa fará
uma nova pesquisa perguntando há quanto tempo essas pessoas aplicam em ações, o que as
levou para a bolsa e de que forma aplicam, via fundos, carteiras próprias, home broker ou
clubes.
Mas, mesmo em menor escala, a iniciativa da Bovespa ainda atrai desavisados. Alguns
banhistas se aproximam do Bovmóvel achando que se trata de um terminal eletrônico de
banco, provavelmente mais pela cor vermelha, do que pela falta de conhecimento do que é
o mercado de ações. Quem sabe no próximo “Bovespa vai à praia”, no verão de 2009, as
dúvidas dos banhistas sejam menores e a bolsa não resolva mudar a cor do Bovmóvel?

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