Uma palavra ao cotista
Prezado (a) quotista,
Muitas vezes pensamos em redigir cartas de gestão mensais em que poderíamos
expressar nossas opiniões a respeito do mercado e da economia. Pelo momento, preferimos
nos focar no que de fato é importante para o desempenho de nosso trabalho: a análise de
empresas. Entretanto, estamos sempre à disposição para conversar a respeito do desempenho
do clube de investimentos.
Devido às fortes quedas na bolsa de valores, resolvemos sintetizar nossa opinião
neste pequeno comentário a respeito do comportamento do mercado ao longo deste ano e
principalmente a respeito do momento atual. Em resumo aos comentários abaixo, nosso
mercado de ações foi influenciado pelo desenrolar da crise do subprime, receios de uma
recessão da economia mundial em particular nos EUA e China e principalmente fluxo de
saída de recursos (venda de ações por investidores estrangeiros). Entendemos perfeitamente
os motivos das quedas nos índices das bolsas de valores do mundo todo, mas vemos esse
movimento como assimétrico e exagerado, em diversos casos, na nossa bolsa de valores.
Aos investidores de longo prazo, gostaríamos de apontar uma excelente oportunidade para
novos aportes.
Como investidores fundamentalistas de valor, somos sempre conservadores em
nossas estimativas e prezamos sempre por buscar “margens de segurança” em todos os
nossos investimentos. Em momentos em que observamos assimetria entre a desvalorização
de uma ação e seus fundamentos financeiros, consideramos que essa margem de segurança
aumenta. Neste momento, apesar de muitos investidores estarem assustados, estamos muito
tranqüilos com relação ao futuro das empresas nas quais o clube investe e consideramos que
o potencial de valorização está ainda mais atraente.
As consecutivas quedas no índice Bovespa são reflexos de alguns fatores que têm
influenciado o cenário econômico mundial ao longo do ano. No início deste ano, o mercado
de capitais brasileiro um cenário muito positivo, dado pela consistência da economia
brasileira e havia inclusive a expectativa do país ganhar o grau de investimento ao longo do
ano.
No entanto, a crise no mercado de hipotecas norte americano, publicamente
conhecida desde agosto do ano passado, mostrou reflexos mais graves sobre os resultados de
instituições financeiras principalmente nos EUA.
Os resultados financeiros negativos surgiram da exposição de instituições financeiras
em títulos de hipotecas (subprimes) de alto risco. À medida que esses prejuízos financeiros
foram sendo reconhecidos contabilmente, surgiu a necessidade de cobri-los para evitar
falências.
O FED (banco central americano) passou a estimular a economia através de cortes
nas taxas de juros na tentativa de evitar uma recessão grave da economia do país.
O equilíbrio entre juros e recessão passou a ficar ainda mais complicado com os
dados da inflação americana. O mercado passou então a temer o que se chama de
“estagflação” (estado da economia em que além do decrescimento da economia do país,
assistimos a presença da inflação).
Nesse cenário o papel do FED seria ainda mais delicado, pois cortes de juros
poderiam agravar ainda mais o estado inflacionário.
Sem a pretensão de discorrer profundamente sobre a economia americana,
gostaríamos apenas de apontar: o enfraquecimento do dólar e a forte demanda mundial,
desencadearam altas nos preços das commodities (produtos como petróleo e metais,
negociados no mercado internacional). Nosso país é um grande exportador desses produtos e
algumas das nossas maiores empresas estão relacionadas a eles. Ao longo deste ano,
colhemos os louros de sermos produtores e exportadores de commodities. Nossa bolsa de
valores chegou a atingir 73.970 pontos (em 29/05/2008) o que representava uma alta de
14,50% em relação a 31/12/2007.
A crise do subprime passou a se traduzir em um alto risco de liquidez da economia
americana. A grande ameaça provém do fato da economia americana estar baseada em dois
pilares principais: crédito e consumo. Com uma crise de crédito e um decréscimo de
consumo, a economia americana estaria muito exposta.
Para levantar recursos e cobrir prejuízos, muitas instituições, que atuam em
diferentes países, começaram a realizar os lucros financeiros (exemplo: vender ações) em
países onde tinham operações, entre eles o Brasil. Iniciou-se então um movimento de saída
de capital estrangeiro do mercado local.
O índice Bovespa começou a refletir a saída desses capitais com grandes oscilações
entre altas e baixas. Em relação ao capital estrangeiro, já registramos uma saída de R$ 23
bilhões1. O movimento de queda da bolsa só não foi maior, porque houve um expressivo
volume de compra de investidores locais. Se tivéssemos que resumir a razão da queda de
nossa bolsa de valores em 17 dígitos, esses dígitos seriam: - R$23.000.000.000,00. Essa
queda ocorreu independentemente da qualidade ou fundamentos das nossas empresas.
Mesmo neste cenário, por apresentar uma economia sólida nosso país alcança o grau
de investimento, indicando que o país já estava categorizado como um país de baixo risco de
crédito e capaz de honrar seus compromissos financeiros. Tal conquista permitiu que o
Brasil entrasse na lista dos comitês de investimentos várias instituições e fundos
internacionais, que têm como premissa só investir em países que sejam grau de
investimento.
Além do subprime, a elevada demanda por commodities e a escassez de oferta de
muitas delas, levaram-nas a serem negociadas a preços muitos elevados. Os altos preços das
no mercado mundial, passaram a preocupar os investidores com uma possível “crise nas
commodites”. Essa, ao contrário do subprime, teria reflexos diretos no mercado brasileiro.
As especulações se baseiam sobre uma possível redução da demanda desses produtos,
devido a taxas de crescimento menores nos países desenvolvidos e na China.
Essas “especulações”, como todo boato, correm pelo mundo assombrando
investidores. O que podemos observar de forma concreta é o resultado das nossas
empresas… muitos deles recordes, divulgados no último trimestre.
A expansão das economias emergentes, principalmente os BRIC´S (Brasil, Rússia,
Indica e China) continuam apresentando ritmo de crescimento econômico consistente o que
deve amenizar problemas na economia americana. Mesmo que a China passe a crescer em
um ritmo mais lento, os volumes de commodities demandados ainda continuarão muito
altos.
Em nossa visão, um movimento de queda como o que estamos presenciando, sem
relação proporcional com os fundamentos de algumas de nossas empresas, representa uma
boa oportunidade de investimento. Não temos como prever até quando o mercado
continuará a cair, no entanto, podemos tentar calcular quanto nossas empresas podem gerar
de retorno se comprarmos suas ações nesse momento.
Não estamos, nem podemos (como gestores de recursos), recomendar a compra ou
venda de ativo algum. Desta forma, apenas para ilustrar os preços atuais de algumas
empresas, citamos os casos das ações mais líquidas de nossa Bolsa de Valores: Petrobrás e
Vale do Rio Doce.
Em todos os nossos investimentos, exigimos margens de segurança, que representam
margens de erro para nossas conservadoras premissas. Neste momento, acreditamos ter
margens de segurança bastante elevadas.
Uma das maneiras de avaliarmos uma empresa é desmembrando-a em partes e
calculando o valor de cada parte separadamente. No caso da Petrobrás, estimativas mostram
que o preço atual da Petrobrás representa somente o valor das reservas provadas,
considerando-se o valor do barril do petróleo abaixo de US$ 85,00 (atualmente o barril de
petróleo está cotado a US$ 110).
Neste caso, a margem de segurança é igual ao valor das reservas pré-sal (incluindose
nesta conta o megacampo de Tupi, com reserva estimada de 5 a 8 bilhões de barris), além
das refinarias e demais atividades.
No caso da Vale do Rio Doce, o valor atual representa o “valor econômico” da
empresa, considerando-se uma redução do preço do minério de ferro de 20% em 2009, além
queda de 20% no níquel. Neste caso, a margem de segurança contempla o fato da demanda
nunca mais (isto inclui toda a perpetuidade) impulsionar o preço do minério e do níquel,
além do contraste com o cenário mais provável de alta desses produtos nas negociações de
2009.
Acreditamos que o mercado corrigirá esses exageros, trazendo os recursos que
saíram de nossa bolsa de valores, atrás de bons investimentos, como os que encontramos
hoje.
Esse breve comentário é apenas o resumo de nossa visão a respeito das notícias
recentes, e, de forma alguma, pode ser entendido como uma verdade absoluta. O dinheiro de
renda variável deve ser uma parte dos recursos (ou da poupança) de longo prazo dos
investidores. Isso porque, apesar dos fundamentos, no curto prazo, o mercado está sujeito a
variações negativas.
Nesse cenário, o senso comum recomenda ao investidor que necessita do dinheiro no
curto prazo, não aplicar seus recursos na bolsa de valores, acreditando que haverá uma
recuperação imediata. Ao contrário, se o investidor possuir recursos de longo prazo, a
melhor idéia seria continuar a fazer aportes constantes, principalmente em momentos como
este.
Atenciosamente,
José Luiz de A. N. Junqueira
1 Em relação ao total que atingimos de entrada de R$ 7 Bilhões
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August 24th, 2009 at 3:14 am
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